Desfile de moda antigo
Eu iria para o inferno
antes que me vendessem
qualquer coisa que elas vestiam.
Eu iria para o inferno
antes que me vendessem
qualquer coisa que elas vestiam.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Mas por não se lembrar de acalantos,
a pobre mulher
me ninava cantando cantigas
de cabaré
Numa solidão de asceta,
não vê o mundo em volta.
Só a bola.
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Por que me fiz poeta?
Porque tu, morte, minha irmã,
No instante, no centro
De tudo o que vejo.
Conheço esses ratos
já os vi matar
então o que eu preciso
é uma crença diferente.
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm.
Pensaremos em cada menina
que vivia naquela janela;
Mas a profunda saudade
é Maria...
Remove pedras
e planta roseiras
e faz doces.
Recomeça.
Duas pernas de pedra,
enormes e sem corpo,
acham-se no deserto.
Dois amantes que são?
Dois inimigos.
Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar.
As horas cantam cantigas
E eu vivo só de momentos,
Sou como as nuvens do céu…
Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Nem ama duas vezes a mesma mulher
Lá me esconde,
amor,
um mal,
que mata e não se vê
Seria essa estátua uma mera pedra,
um desfigurado mármore,
e nem já resplandecera mais
como pele de fera.
Pulsava junto ao meu, seu coração.
Para mim, o seu cantar era Divino.
Tu me moves, Senhor,
move-me o ver-te
cravado nessa cruz
e escarnecido.
E começo a acreditar
No mau feitiço da estrada:
Que se ela não começou
Também não foi acabada!
A eterna aspiração de um sonho superior:
buscar um companheiro e encontrar um senhor.
Há uma fita
que vai sendo cortada
deixando uma sombra
no papel.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Razões são palavras,
todas nascem da mansa hipocrisia
que aprendemos.
Deixar o mundo sem pena
Buscar a aurora sorrindo
Será morrer?
Ficou o espírito, mais livre que o corpo.
A música, muito além do instrumento.
Ó noites claras de lua cheia,
Como eu vos amo, noites formosas!
Cargo muito pesado pra mulher,
Mas o que sinto escrevo.
Cumpro a sina.
Outrora, foste um jardim,
e és, agora, eternidade!
Tudo se faz humilde em torno dela
por ser sua visão assim tão bela
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa
Felicidade, custas a vir,
E, quando vens, não te demoras...
A torre, sobre as velhas casas,
Fica cismando como é vasto o mundo!
As minhas mãos, velas paradas,
Não sei que frêmito as agitou!
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
Este silêncio é feito de agonias
E de luas enormes, irreais...
Decore seu olhar com luzes brilhantes
estendendo as cores em seu semblante
Os anjos, duas vezes descendo
Reembolsaram minha escassez.
Por isso as asas dormentes,
suspiram por outro céu.
Mas ai delas! tão doentes,
não podem voar mais eu...
Este cansaço extremo, esta saudade
De uma cousa que falta à vida...
Vede que os humanos
Erros e cuidados
Nos são tão pesados
Como há dois mil anos.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
De nada me serviria
estar olhando para outro lado
e para aquilo que não vejo.
Talvez uma visão resplandecente
Lhe amostrou no futuro
A sonorosa tuba...
Mas nesta rua há um operário triste:
Ele trabalha silenciosamente...
Hoje, entre os ramos, a canção sonora
Soltam festivamente os passarinhos.
Que as tuas mãos saibam colher
aquilo que não foi...
Sabe Deus se te amei!
Sabem as noites
essa dor que alentei,
que tu nutrias!
Um romance cantou de despedida,
Mas a saudade amortecia o canto!
E um ser, que nunca viste,
em um sorriso triste,
te abraçará
Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.
Vive do riso duma boca fria:
Minh’alma é a Princesa Desalento…
Ao lado do infante,
O homem e a mulher:
Uma tal Maria.
Um José qualquer.
Eu vi a Morte, a moça Caetana,
com o Manto negro, rubro e amarelo.
Tinha um índio terena que diz-que
falava azul.
Mas ele morava longe.
O mundo é grande e cabe nesta janela...
O mar é grande e cabe na cama...
Vinde sorrir-me ainda!
Hei-de morrer contente
Cantando uma canção alegre,
doidamente...
Eu quis chamar o homem,
para lhe dar um sorriso,
mas ele ia já longe
Meu ser é a comunhão de dois seres diversos.
Dois seres — um, a Carne, outro, o Espírito...
As vagas do sofrimento me arrastaram
para o centro do remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim...
Fiz isso na intenção,
Como fez Pedro Segundo,
de quando eu deixasse o mundo
levá-lo no meu caixão.
Silêncio, vêm de ti o que falo e o que escrevo,
meu professor de calma e de meditação!
É um globo brilhante:
parece cristal,
é como um aquário com plantas
Meu Ideal, és uma águia, dessas grandes
águias que se aventuram céus além...
Uma pálpebra,
Mais uma, mais outras,
Enfim, dezenas
De pálpebras sobre pálpebras...
A queda do teu lírico arrabil
De um sentimento português ignoto
Lembra Lisboa...
Triste é os tempos vividos, venturosos,
Comparar às agruras do presente;
Que mágoas só as tem quem teve gozos.
"Meu Deus, mas isto é um sonho!"
Sonhos nossos? Não tanto...
Pela primeira vez a víscera do herói,
Que a imensa ave do céu perpetuamente rói,
Deixou de renascer.
Ouço balidos pelo mundo inteiro:
Matam o cordeiro branco redentor.
isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é...
Pode ser venturosa a criatura
Que não crê, que não ama e que não sonha?!
Eu levarei comigo as madrugadas,
Pôr-de-sóis, algum luar, asas em bando,
Mais o rir das primeiras namoradas...
Penso às vezes o quanto essas meninas
No seu desejo triste hão de sofrer
Vai a Névoa, a bruxa silenciosa,
Transformando a Cidade, mais e mais,
Nessa Londres longínqua...
"Que fazer, para ser como os felizes?"
-Ama!
"Que fazer, para ser bom?"
-Perdoa!
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.
Tu caíste em estado de poesia:
O mal sagrado! Que remédio havia?!
Ó, velhas rimas! É acabar com elas!
Mas o Outono apanha-as...
Há tantos anos de tão longe venho
Que nem me lembro de mais nada agora!
E em vão, nos versos que tu lias tanto,
Inda procuro a tua voz perdida...
Recolhido o anzol da mandíbula, a aranha
Ansiosa espera e atrai o amante de um minuto...
Esquecido que vou morrer enfim,
Eu me distraio a construir castelos...
Tão altos sempre...
Entra sem cerimônia, a casa é tua;
Solta versos ao sol, solta-os à lua,
Toca a lira divina, alteia o colo.
Seremos, na manhã,
duas máscaras calmas
e felizes
Louca, se precipita a sussurrante escolta
Dos noivos zonzos, voando ao nupcial mistério.
Manchas de sangue inda por lá ficaram,
Em cada sala em que me assassinaram...
Sim, desde menino,
Meus olhos se abriam insones como flores no escuro
Amor é sempre amor, por mais que viva;
Não muda a sua essência primitiva,
Possa, embora, mudar a forma ou a cor.
(Naquele tempo, amigo, a tua vida era
Como uma pobre borboleta morta!)
No aconchego do claustro,
Na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima,
E lima, e sofre, e sua!
A ciranda rodava no meio do mundo,
No meio do mundo a ciranda rodava.
É que, abrindo a boquinha, sorridente,
Deixou ver a promessa, a perspectiva,
O breve ensaio do primeiro dente.
O meu amor faísca na medula,
pois que na superfície ele anoitece
Andam por tudo signos diversos
Impossíveis da gente decifrar.
Repara na canção tardia
que oferece a um mundo desfeito
sua flor de melancolia.
Fiquei sozinho... Mas não creio, não,
Estejam nossas almas separadas!
Às vezes sinto aqui...
Camões sofre, na infâmia de clausura,
Pária sem honra, náufrago sem nome...
Eu nada mais desejo, nem a morte...
Delícia de ficar deitado ao fundo
Do barco!
Bela
esta manhã ou outra possível,
esta vida ou outra invenção
Existe em nós um grande amor adormecido
Que sentimos vibrar dentro do nosso eu;
Será recordação de um afeto perdido?
Minha morte nasceu quando eu nasci.
Mas inda agora a estou sentindo aqui,
Grave e boa...
Morreste, em plena orgia, e a saudade terás,
Herói folião, dos carnavais hilares...
De olhos vítreos, parados, a serpente
Fita a mísera rã hipnotizada
E tu não vieste, sob a paz lunar,
Beijar os seus entrefechados cílios
E as dolorosas bocas...
Perdi-me na existência,
Entre os homens.
E encontrei-os, vivos, bem vivos!
O excesso de gozo é dor.
Dói-me alma, sim; e a tristeza
Vaga, inerte e sem motivo,
No coração me poisou.
A tarde pobre fica,
horas inteiras,
a espiar pelas vidraças
Mas bendito, entre os mais,
O que, no dó profundo,
Descobriu a Esperança!
O artista é um erro da natureza.
Beethoven foi um erro perfeito.
Ao monótono embalo do acalanto
O choro pouco a pouco se extinguiu...
Se eu disser que os anos
Passam correndo ou passam vagarosos
"Filosofia é esta de rançosos!"
Dirás.
Desde cedo aprendi a sofrer
devagarinho, a guardar meu amor...
Quem eu pudera ter sido, que é dele?
Entre ódios pequenos de mim,
Estou de mim partido.
Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo
Quem vive dentro em mim que ruge e clama
Ou murmura, em soluços, uma prece?
Olhai o coração que entre gemidos
Giro na ponta dos meus dedos brancos!
Tudo tem, agora,
Essa tonalidade amarelada
Dos cartazes que o tempo descolora...
As borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
Assim, um homem só, naquele dia,
Língua, história, nação, armas, poesia,
Salva das frias mãos do tempo adverso.
Até parece que a cidade inteira
Sob a garoa adormeceu sonhando...
Os soldados de amianto, à chama indiferentes,
Contra a cratera em fogo, investem sem demora.
Mestre querido! Viverás, enquanto
Houver quem pulse o mágico instrumento,
E preze a língua que prezavas tanto
Este eterno viver insatisfeito
Tudo isso mostra bem
Que a mente humana em dúvidas se abisma.
E sentes alta noite no teu leito
Minh'alma na tua alma repousando,
Repousando meu peito no teu peito...
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Tu que também o Purgatório andaste,
Tu que rompeste os círculos do Inferno,
Camões!
Não esperes achar compensações na terra:
Se fizeres o bem, prêmio nenhum terás.
Mas não culpes ninguém.
É a vida.
Aceita a vida...
E sei apenas do meu próprio mal,
Que não é bem ou mal de toda a gente.
A névoa cresce, e, em grupos repartida,
Enche os ares de sombras vaporosas:
Sombras errantes...
Toca essa música de seda, frouxa e trêmula
que apenas embala as estrelas noutro mar.
Toca essa música de seda, entre areias e nuvens e espumas.
Choras, e eu julgo que nas tuas cordas,
Choram todas as cordas do Passado!
Alongo os olhos, atirando um beijo
à forma vaga do teu corpo... E nada!
Parece que estou vendo com os ouvidos:
"Couves! Abacaxis! Caquis! Melões!"
Tereis notado que outras coisas canto
Muito diversas das que outrora ouvistes.
Os meus sapatos velhos refloriram.
Quase que eu saio voando céu em fora!
Vive além da tua natureza,
Foge à matéria
E o espírito exercita
Dorme...
Não há ladrões, eu te asseguro...
Nem guardas...
Nada perdeu da intensidade antiga
Meu sempre novo e apaixonado amor;
O ofício de te amar não me fatiga
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante
Nariz, que nunca se acaba;
Nariz, que se ele desaba,
Fará o mundo infeliz!
Valemos todos pela nossa crença
Na comunhão do amor e do trabalho.
Que me importa este quarto, em que desperto
como se despertasse em quarto alheio?
Eu olho é o céu!
Cada palavra tinha o seu sentido...
Como as entenderia - eu,
tão pobre de espírito?
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou...
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Uma luz qualquer, durante o dia,
Que, às vezes, fica, por descuido, acesa,
Causa-nos mal-estar...
Trago-te palavras, apenas...
e que estão escritas
do lado de fora do papel...
O que há sob essa máscara é um pranto seco,
pranto final, sem lágrimas, calado,
sem esponja de fel e último brado.
Meu desejo? era ser a luva branca
Que essa tua gentil mãozinha aperta
A Vida, meu amor, quero vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas hemos de bebê-la!
Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
Quanta vez o que resta é essa frágil chave
perdida na algibeira da infância
É quem ficou no mundo redimido,
expurgado dos vícios mais singelos
e disse a tudo o adeus indefinido...
Tudo é luz!
Há muito prisma doirado
Que pelos ares transluz...
Tuas pétalas são asas...
O homem que saiu de casa depois da hora de recolher
não dirá por que saiu
E os inquiridores não sabem...
Melhor do que a criatura,
fez o criador a criação.
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
E a estrela foi p’ra o Céu subindo,
Minh’alma que de longe a acompanhava,
Viu o adeus que do Céu ela enviava...
Mas ai fado cruel! que são azares
Toda a sorte, que dás dos teus haveres,
Pois val o mesmo dares, que não dares.
Quantas meninas pela vida afora!
E eu alinhando no papel as fortunas dos outros.
Riqueza da alma, psíquico tesouro,
Alegria das glândulas do choro
De onde todas as lágrimas emanam...
És suprema!
Tranqüila distância
em que o amor é saudade
e o desejo, constância.
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.
Vou procurá-la a vida inteira
Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
Se é tão formosa a Luz, por que não dura?
Fatigados caminhos refazemos
Da outrora máquina da mineração.
É nossa própria forma, o frio molde
Que maduros tentamos atingir...
Montes contempladores, circunscritos
Entre cinza e castanho, o olhar domado
Recolhe vosso espectro permanente.
No entanto dizem que este padre amara.
Morrera um dia desvairado, estulto...
Breve momento em que um olhar
Sorriu ao certo para mim…
O brilho se apagou daquela estrela
Que a vida lhe tornava venturosa!
Muito bem-vinda seja a esta mofina e mísera cidade,
Sua justiça agora, e eqüidade, e letras
com que a todos causa inveja.
Templo de experiência e expiação,
O incenso da matéria se respira
Nas tuas arcadas nuas e rochosas.
Alguém anda a construir uma escada pros meus sonhos.
Meu pensamento desloca uma perna,
o ouvido esquerdo do céu não ouve a queixa dos namorados.
Um dia hei de ir embora
Adormecer no derradeiro sono
Um dia chorarás... Que importa?
Chora.
Junto de teu seio
Que treme-te e palpita em doce enleio
Beba eu o amor que teu olhar revela.
Hoffmânnicas visagens
Enchiam meu encéfalo de imagens
As mais contraditórias e confusas!
Há um grande silêncio que está sempre à escuta...
E a gente se põe a dizer inquietamente qualquer coisa
O que há melhor no amor é a iluminância.
Mas, ai de nós! não vem de nós. Viria
De onde? Dos céus?... Dos longes da distância?...
Eu vivia no doce alento
dessa virgem bela...
Tanto amor, tanto fogo
Se revela naqueles olhos negros!
Não se enterra assim sem compaixão
Os escombros benditos de um Passado!
Ai! não me arranques d'alma este conforto!
De quem me valerei, se não me valho
De ti, que tens a chave dos destinos
Em que arderam meus sonhos cristalinos?
Dentro da alma aflita via Deus
- essa mônada esquisita -
Coordenando e animando tudo aquilo!
Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!
Sobre as águas, arfando,
uma breve jangada passa.
Tão frágil! Deus a leve, onde ela vá.
Misericordiosíssimo carneiro esquartejado,
a maldição de Pio Décimo
caia em teu algoz sombrio!
E nos olhos azuis cheios de vida
Lânguido véu de involuntário pranto!
É esse o talismã, é essa a Armida,
O condão de meus últimos encantos...
Fosse mágoa ou saudade,
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.
- Foi então que senti sorrir o meu desgosto...
Amo o coveiro - este ladrão comum
Que arrasta a gente para o cemitério!
É o transcendentalíssimo mistério!
Esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
As almas são incomunicáveis.
A grande distância que entre nós estiver
Lembrança de ti não me fará perder.
Faz que tua alma a distância também vença!
Ah! todos os fenômenos do solo
Parecem realizar de polo a polo
O ideal de Anaximandro de Mileto!
Fontes... cisternas...
Enigmáticas campas medievais...
Jardins de Espanha... catedrais eternas...
Berço vindo do Céu à minha porta...
Que resta do esplendor de outrora? Quase nada:
Pedras... templos que são fantasmas ao sol-posto.
O convalescente mira.
- Que pena, que pena no seu mirar!
Até que uma criatura
inventou de botar
uma corda na cintura.
Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias.
Vá revolvendo a terra, o mar e o vento,
Que eu só em humilde estado me contento
Precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
- Linfa que escorre do materno veio,
Só teu leite o teu filho satisfaz!
Tiveste a glória da Maternidade,
Prêmio, bênção divina do Senhor!
Com que prazer me desfolhava,
já que a vida é tão dolorosa
e não te sei dizer mais nada!
É um ser anímico esse objeto inanimado:
- arde o pavio, e, entanto, o que se esvai é a cera...
- dói a alma, e o corpo é que se faz mortificado...
Ó lustres de cristal, enganadoramente
Ao mesmo tempo sois sonoros e calados.
Seu mudo olhar no meu repousa,
E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,
Que ela tenta dizer-me qualquer cousa...
Por isso aqui minhalma te abençoa:
Tu foste a voz compadecida e boa
Que no meu desalento me susteve.
Por isso eu te amo.
Às vezes, a tremer na fraga faiscante,
Passa uma folha verde, e sobre a veia ondeante
Abandona-se toda, ansiosa pelo mar...
Como da copa verde uma folha caída
Treme e deriva à flor do arroio fugidio,
Deixa-te assim também derivar pela vida.
Eu não sei, no que emprendo, e no que lido,
Se triunfo o respeito, se o cuidado.
Porém, vença o mais forte sentimento...
Minha mãe custa a acordar a sala
Fujo de mim, na última quadra
Nem se engane nenhuma criatura,
que não pode nenhum impedimento
fugir...
Tirem-me o manto, deixem-me desnudo,
Mas não me tirem da alma esta saudade!
Um dia veio, em que a descrença o aspeito
Mudou de tudo: em túrbidas enchentes,
A água um manto de lodo e trevas feito
Estendeu pelas veigas recendentes.
Que é de ti mundo? onde tens parado?
Se tudo neste instante está acabado,
Tanto importa o não ser, como haver sido.
Água! Sangue da terra! Religião...
Há na tua bondade humana e leal,
Quando a roda maior moves do Engenho,
Qualquer bafejo sobrenatural...
Seja bendito o fruto do teu ventre, Jesus,
Mais belo dentre os astros...
Ó caos confuso, labirinto horrendo,
Onde não topo luz, nem fio achando;
Lugar de glória, aonde estou penando;
Casa da morte, aonde estou vivendo!
Têm memória de água e vento
e – além dos mundos desvairados –
do silêncio, o etéreo silêncio!
Olhos ternos azuis,
Ao ver-vos cheios d'água,
Eu padeço também...
Bem triste e bem cruel decerto foi o ente
Que este Saara atroz - sem aura, sem manhã,
A Álgebra criou...
Ai! Pobre coração!
Assim vazio e frio
Sem guardar a lembrança de um amor!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!
Passei a vida a amar e a esquecer...
Cuidei de me salvar, mas foi em vão,
Que contra o Céu não há defensa humana.
Um grande recolhimento
Preside neste momento
Todas as forças do Mundo
Eu sei lá bem quem sou?
Um fogo-fátuo, uma miragem... Sou um reflexo...
Um canto de paisagem, ou apenas cenário!
Vereis, Senhora, então também mudado
O pensamento e aspereza vossa,
Quando não sirva já sua mudança.
Suspirareis então pelo passado.
Desisto
de tudo quanto é misto
e que odiei ou senti.
Quem mais tarde, nesta folha lesse,
Perguntaria: "Que autor é esse?"...
- Perdida voz que de entre as mais se exila
+Tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.
Mas esta mágoa, o tê-la
É um engano profundo.
Faze por esquecê-la!
Não te amo, não.
E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Queria, se ser pudesse, o impossível;
Queria poder mudar-me e estar quedo;
Usar de liberdade e estar cativo;
Queria que visto fosse e invisível;
É por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra e viça.
Por ti, na arena trágica, as nações
Buscam a liberdade, entre os clarões...
deveríamos desobedecer secretamente a nós mesmos,
imitar um pouco mais os bichos
E essa futura
Ultrafatalidade de ossatura,
A que nos acharemos reduzidos!
e a tudo me arremesso, nesse quando
amanhece frescor de coisa viva
Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!
Árvores! Não choreis!
Jura Amor que brandura de vontade
Causa o primeiro efeito; o pensamento
Endoudece, se cuida que é verdade.
Mas se paro um momento,
se consigo fechar os olhos,
sinto-os a meu lado de novo
Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.
Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jadim,
Num país de ilusão que nunca vi...
Porque, inda mais que se tema de mudanças,
Menos se teme a dor quando se sente.
Certo, dista muitas e muitas léguas de caminho...
Não importa.
O que importa é ir em fora...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Não esperava, agora, a tua vinda.
Eu tão despreocupado estava, ainda,
Levando a vida como num brinquedo...
Nessa esfinge da Vida a verdade se esconde;
O espírito concentro e consulto a razão,
E uma voz interior, sincera, me responde...
Hoje eu queria estar entre as nuvens, na velocidade das nuvens, na sua fragilidade, na sua docilidade de ser e deixar de ser.
Livremente.
O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.
Erma, cheia de tédio e de quebranto,
Rompendo os diques ao represo pranto,
Virou-se para Deus minha alma triste!
Ó cinérea Princesa, é muito densa
do mundo humano a trama das neblinas...
A floresta do absurdo é negra, é imensa,
e as sibilas se escondem, repentinas.
As vossas flores
ficarão para sempre mais perfeitas,
já que o tempo extinguiu brilhos e cores;
Da mesma forma aquela sentença:
"A quem te pedir um peixe, dá uma vara de pescar."
Pensando bem, não só a vara de pescar, também a linhada,
o anzol, a chumbada, a isca...
Recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.
O que sou vale mais do que o meu canto.
Espectros dos meus próprios pensamentos,
Como um bando levado pelos ventos,
arrebatado em vastos turbillhões...
Tudo que a velha Natureza gera
Vai sempre rumo do melhor futuro;
Ela fecunda com o ânimo seguro
De quem muito medita e delibera...
Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
Sempre o contraste! Pássaros cantando
Sobre túmulos... flores sobre a face
De ascosas águas pútridas boiando...
Adeus! Adeus! É o fim da Mocidade!
Nunca mais! Nunca mais! E era tão linda!
A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Vai verter a vida
Do corpo Seu,
Pra levar a culpa
De alguém como eu!
Ó breve deusa de silêncio
que na face da noite corres
como a dor pelo pensamento
A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
Pensar numa flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Outros
Que contem passo por passo
Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.
Maldito seja o cérebro que gera
Infâmias tais que em cólera maldigo!
Se eu disse tal, que tenha por castigo
O beijo de uma sogra ou de uma fera!
Oh!
já não é analfabeto,
esse inseto,
pois sabe escrever o seu nome.
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
Ser tua sombra, tua sombra, apenas,
e estar vendo e sonhando à tua sombra
a existência do amor ressuscitada.
Solto gemidos, lágrimas derramo.
Razão, de que me serve o teu socorro?
Eu penso em minha gente
E sinto assim todo o meu peito se apertar...
Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade.
Estende o teu olhar à Natureza,
Fita a cúp'la do Céu santa e infinita!
Deus é o templo do Bem...
Dá-me a esperança com que o ser mantive!
Volve ao amante os olhos, por piedade
Meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores...
Morro, morro por ti!
Era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno,
Ao relembrar os dias de pequeno...
É estranho que, depois de morto,
rompidos os esteios da alma
e descaminhado o corpo,
homem, tenhas reino mais alto.
São de náufragos mil estes acentos,
Estes gemidos, este aiar insano...
Aos poucos, suavemente,
Pendeu os ramos sobre um muro em frente
E foi frutificar na vizinhança...
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.
Seus gestos são os mesmos
gestos de outras datas,
dentro de outras raças,
longe, noutros templos.
Seguindo pelo rumo do sertão,
Quando vires a cruz abandonada,
Deixa-a em paz dormir na solidão.
Os barcos nesta noite não arquejam,
são mudos na verdade do silêncio.
Junto da Morte é que floresce a Vida!
Andamos rindo junto à sepultura.
E invades, como um sonho, a imensa altura,
- Ultima a receber o adeus do dia,
Primeira a ter a bênção das estrelas!
Assim repleto de acasos e todo coberto de lágrimas
Há um coração
Infelizmente, como eu
Não aprendi op A-B-C
Eu faço samba de ouvido pra você
Cantem outros de amor ou rujam de ira.
Eu não canto, nem rujo... nem me queixo...
e vou...
Conhecereis a praia
Onde a vaga se espraia
E a tempestade cessou?
Ondula incertamente.
Débil como uma haste de papoila
Me suporta o momento. Nada quero.
Que pesa o escrúpulo do pensamento
Na balança da vida?
Porque és assim tão escura, assim tão triste?!
é que, talvez, ó noite, em ti existe
Uma saudade igual à que eu contenho!
No mistério solitário na penugem
Vê-se a vida correndo, parada
Como se não existisse chegada
E o chão, sob os seus passos murmurando,
Segue-a de um hino, de rumor de festa...
E teus olhos abertos nos meus fechados.
E esta ausência em minha boca:
pois bem sei que falar é o mesmo que morrer
Se tudo neste instante está acabado,
Tanto importa o não ser, como haver sido.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
Ignoro tudo.
Quando alguém diz que sabe alguma coisa,
fico perplexa:
ou estará enganado, ou é um farsante
Se meu crime provém da natureza,
quem de ser deixará réu, criminoso?
Estas as figurações do sonho:
uma placa de prata e um nome inscrito,
hoje apagado, gravado há muito,
muito tempo. E só.
Ouço que a natureza é uma lauda eterna
de pompa, de fulgor, de movimento e lida...
Mostro que o não padeço, e sei que o sinto.
O mal, que fora encubro, ou que desminto,
Dentro no coração é que o sustento
Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo.
Nãosei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo
Um dia, fez Deuz uns olhos
Tão azuis como esses teus,
Que olharam admirados
A taça branca dos céus.
Tudo isso, minha amiga, mudou...
A nossa vida é mesmo passageira...
A saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
Dá-me o que de possuir tu não te importas
e eu multiplico o que te falta e em mim existe
Acreditar em mulheres
É coisa que ninguém faz;
Tudo quanto amor constrói
A incostância desfaz.
Não desças os degraus dos sonhos
Para não despertar os monstros.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Conhece-se a beleza dádiva dos deuses por aquilo que
ela produz na alma dos homens.
Trago, de caminhar, os membros lassos,
acutilam-me os ventos e as geadas,
já não sei o que são noites serenas...
Sinto que vais chegar, ouço-te os passos,
mas ai!
Porque há doçura e beleza
na amargura atravessada,
e eu quero memória acesa
depois da angústia apagada.
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ah, onde estou onde passo, ou onde não estou nem passo,
A banalidade devorante das caras de toda a gente!
Por onde anda a gente anda quando dorme
pra acordar com esta cara disforme
de quem fez o que não devia?
Se um Deus fulmina os erros da ternura,
Uma lágrima só Lhe apaga o raio.
Mas por ela sofreste em teu amor.
Sem ter consolo a mágoa que sentiste,
Ficaste, poeta, para sempre, triste...
O silêncio por tudo...
Apenas, alta noite, uma sombra de leve
Agita-se a tremer nas trevas de veludo...
Não sinto onde é que estou, nem se estou. Não sei nada.
Nem ódio, nem amor. Tédio? Melancolia.
Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.
A chuva chove mansamente... como um sono
que tranqüilize, pacifique, resserene...
A chuva chove mansamente... Que abandono!
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.
Essa mulher...
Quando eu a conheci, ela trazia
Na voz um triste e doloroso acento.
Era a cigarra...
E ela, ouvindo os conselhos que eu lhe dava
(Quem dá conselhos sempre se consome...)
Continuava cantando...
Ausências e cegueiras absolutas
ofereces às vespas e às abelhas,
e a quem te adora, ó surda e silenciosa,
e cega e bela e interminável rosa
Eu sei.... O mundo é um lodaçal perdido
Cujo sol (quem mo dera!) é o dinheiro....
Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas
Casa assombrada,
Onde andam penitentes
sombras e ecos de amor,
E em que perdura a saudade,
presença dos ausentes.
Aroma... Graça... Qualquer coisa infinita... Amor... Pureza...
+Ninguém te viu o sentimento inquieto,
magoado, oculto e aterrador, secreto,
que o coração te apunhalou no mundo.
Deve - forçosamente - a qualquer instante
formar-se, pobre amigo, uma bolha de tempo nessa Eternidade...
Que símbolo divino
Traz o dia já visto?
Na Cruz, que é o Destino,
A Rosa que é o Cristo.
Tu, só tu, puro amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua.
Nos caminhos da eterna Primavera
Do amor, eis as estrelas palpitantes.
Oh, como não me alegra
ter este coração de pedra!
Dizei por que assim me fizestes,
vós todos...
Pecador indomável, nunca insulto
A primavera que já vai distante.
Sentindo a flama quase adormecida,
Apelo para uma última vitória,
E ardo...
Para a alegria de viver nada nos falta:
Tudo em torno de nós é tão puro e tão bom...
Por quem foi que me trocaram
Quando estava a olhar pra ti?
Pousa a tua mão na minha
E, sem me olhares, sorri.
Ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés...
Mas se o canto da lira achares pouco,
Pede-me a vida, porque tudo é teu.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.
E eu te direi: amiga minha, esquece...
Ânsia de procurar sem encontrar
A chama onde queimar uma incerteza!
Tudo é vago e incompleto!
Dizeis do meu amor que é coisa absurda,
E ele, teimando, faz ouvido mouco;
Nem há razão que o desvaneça ou aturda.
Ora dá-se!
Mas que terrível idiossincrasia!
Este anjo tem as regras de sintaxe!
Seja embora ilusão, hei de sempre mantê-la:
- No côncavo do céu, há lágrimas astrais
E o bólide celeste é a lágrima da estrela!
Velhas tristezas
das almas que morreram para a luta!
Sois as sombras amadas de belezas
hoje mais frias do que a pedra bruta.
No canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.
Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram
Pus meus sapatos na janela alta,
Sobre o rebordo... Céu é que lhes falta
Pra suportarem a existência rude!
É por aqui que passam meditando,
Que cruzam, descem, trêmulos, sonhando,
Neste celeste, límpido caminho,
Os seres virginais que vêm da Terra
Há sempre um velho piano de bairro, esquecido
na memória da gente
São vozes de dois amantes,
Duas liras semelhantes,
Ou dois poemas iguais.
Deveríamos apreender a dura lição do pó.
A lei universal à qual todos estamos submetidos.
O pó: eis o grande destino de tudo.
É que tudo me lembra que fugiste.
Tudo que me rodeia de ti fala...
Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer,
E são precisos sonhos para partir.
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida...
Quero que meu amor se te apresente
- Não andrajoso e mendigando agrados,
Mas tal como é: - risonho e sem cuidados,
Muito de altivo, um tanto de insolente.
É assim então o teu segredo.
Teu segredo é tão parecido contigo
Que nada me revela além do que já sei.
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
E ele que fôra um bruto, e vil descrente,
Quanta vez, numa prece, ungido, cola
O lábio seco, na úmida corola
Daquela flor alvíssima e silente!...
À noite, quando sonha,
Sente no tórax a pressão medonha
Do bruto embate férreo das tenazes.
A brisa vaga no prado,
Perfume nem voz não tem;
Quem canta é o ramo agitado,
O aroma é da flor que vem.
Numa rede de presenças
E ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Corte minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!
Não me ouvirás... É vão...
Tudo se espalha pelos ermos de azul...
Ao nosso espírito ardente,
Na avidez do bem sonhado,
Nunca o presente é passado,
Nunca o futuro é presente.
Nem palavras. Nem choro. A mudez. Pensativas
abstrações.
Meu amor é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco...
És bela - eu moço; tens amor, eu - medo...
Derramo os olhos por mim mesmo... E, nesta
muda consulta ao coração cansado,
que é que vejo? que sinto? que me resta?
Nada
Eu ouso dizer que a vida
Foi o bem precioso que eu adorei.
Foi meu pecado...
Não vos iludais o velho que aqui vai:
Eu quero os meus brinquedos novamente!
Quem o molde achará para a expressão de tudo?
Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas
Do sonho?
Fosse possível ser a imagem dela
Depois de tantas mágoas esquecida!...
Minha vida não foi um romance...
Pobre vida... passou sem enredo...
O grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.
Longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.
Mas felizmente a vida nos conforta
De esperança, uma dúbia claridade.
Nas entranhas dos penedos,
Em vida morto, sepultado em vida,
Me queixe copiosa e livremente;
Que, pois a minha pena é sem medida
De quantas graças tinha, a Natureza
Fez um belo e riquíssimo tesouro
Daqui pra frente
Tudo vai ser diferente
Você vai aprender a ser gente
Seu orgulho não vale nada
Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.
Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arracar a luz sagrada!
Vestido de hidrogênio incandescente,
Vaguei um século, improficuamente,
Pelas monotonias siderais...
Choras, sem compreenderes que a saudade
É um bem maior do que a felicidade
Entre o desenho do meu rosto
e o seu reflexo,
meu sonho agoniza, perplexo.
Quem tivesse um amor, sem dúvida nem mácula,
sem antes nem depois: verdade e alegoria...
A estrela sobe, a estrela desce...
- espero a minha própria vinda.
Não é maior o coração que a alma
Nem melhor a presença que a saudade
Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos
Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada, com o teu passo leve, com esses teus cabelos...
E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender nada, numa alegria atônita...
Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade.
Impossível escrever um poema - uma linha que seja - de verdadeira poesia.
Mas, ai das tuas invenções supernas!
Vivemos como os homens das cavernas
Se males faz Amor, em mim se vêem;
Em mim mostrando todo o seu rigor,
Ao mundo quis mostrar quanto podia.
Mas todas suas iras são de amor;
Vivo longe de ti, mas que me importa?
Se eu já não vivo em mim! Ando a vaguear
Em roda à tua casa...
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
Misérrimo! Votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto...
Adiante
O poema é translúcido, e distante
A palavra que vem do pensamento
Sem saudade.
E eu aqui a chorar nesta noite tão fria!
Agonia, agonia, agonia, agonia!
O texto visível é o texto total
O antetexto o antitexto
Ou as ruínas do texto?
Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado enevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Quantas vezes tu mesmo, a cismar, de repente
Te ficaste gozando uma saudade boa?
Leva o vinho que apaga a tristeza e a desgraça
e põe na boca um riso inconsciente e boçal!...
E penso que ele tem a máscula grandeza
desse sedutor, vital barrete frígio!...
Mas, ai! termina
Outra tarde mais triste, dentro dela
Sem agravar meus olhos, e ofender-vos,
Não há de ser possível copiar-vos.
Odeio o mausoléu que espera o morto
Como o viajante desse hotel funéreo.
Sei de todas as cousas, a teoria
Do Universo e as longínquas perspectivas
Que emergem da expressão das cousas vivas.
Se falarem de templos, - olha o céu!... te basta!
Se falarem de fé, - adora a terra!... é tua!
És tudo: oceanos, rios e florestas;
Vidas brotando em solidões funestas;
Primaveras de invernos moribundos;
Decorei tua história e dela não me esqueço
porque sei que tu foste humano e igual a mim!
Graças a vós por este dom divino
Que me defende do destino adverso,
Tornando-me senhor do meu destino.
O Homem ganhou "horizontes"
e palavras viraram pontes
e hoje existe a convicção
que sem a sua invenção
não haveria Civilização.
Ah! Quanto eu sofreria se alegrasses
Com teus beijos de amor, meus lábios tristes,
Com teus beijos de amor, as minhas faces!
Pois se, de mim, não sei causa e destino,
Que dos outros, do mundo, saberei?
Que definir, se a mim não me defino?
Por justaposição destes contrastes,
Junta-se um hemisfério a outro hemisfério,
Às alegrias juntam-se as tristezas...
E logo, de audácia em audácia,
A natureza ganhando terreno
Sugeriu o biquíni
Sei rir-me da vaidade dos humanos;
Sei desprezar um nome não preciso;
Sei insultar uns cálculos insanos.
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro...
O único sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!
(Que artifício! Que sabem
As flores, as árvores, os rebanhos,
De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore,
Se pensasse, nunca podia
Construir santos nem anjos...
Poderia julgar que o sol
É Deus, e que a trovoada
É uma quantidade de gente
Zangada por cima de nós ...
Ali, como os mais simples dos homens
São doentes e confusos e estúpidos
Ao pé da clara simplicidade
E saúde em existir
Das árvores e das plantas!)
Viver é lutar.
O homem que é forte
Não teme da morte;
Só teme fugir...
Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos ...
A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite
Passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Prá que ela acorde alegre como o dia
Oferecendo beijos de amor
Amor! E a satiríasis sedenta,
Rugindo, enquanto as almas se confrangem,
Todas as danações sexuais que abrangem
A apolínica besta famulenta!
Inutilmente parecemos grandes.
Salvo nós nada pelo mundo fora
Nos saúda a grandeza
Nem sem querer nos serve.
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Uma necessidade urgente e rouca
de no amor nos amarmos se desola
em cada beijo que não sai da boca.
Vinha trazer às rosas o primeiro
Beijo do Sol, nessa manhã tão fria!
Um dia foi-se e não voltou...
Observo, ó Pai, a tua arquitetura.
Este corpo não admite o peso da cabeça...
Tudo se expande num sentido amargo.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Porém, como em casos tais
Ando já visto e corrente,
Sem outros certos sinais,
Quanto me ela jura mais,
Tanto mais cuido que mente.
Evitas meu olhar inquiridor
Fugindo, aos meus dois olhos vermelhos,
Porque já te falece algum valor
Para enfrentar o tédio dos espelhos.
"Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me!"
E a verticalidade da Escada íngreme:
"Homem, já transpuseste os meus degraus?!"
Aqui estou, junto à tempestade
chorando como uma criança
que viu que não eram verdade
o seu sonho e a sua esperança.
O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade.
Hoje eu saio na noite vazia, numa boemia sem razão de ser
Na rotina dos bares, que apesar dos pesares me trazem você
Não me culpeis a mim de amar-vos tanto,
mas a vós mesma e à vossa formosura
Seja meu livro então minha eloqüência,
Arauto mudo do que diz meu peito
Ouço as olaias rindo desgrenhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes.
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p'las estradas...
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas.
Serei tal qual pareço em mim? Serei
Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mas não servia ao pai, servia a ela,
Que a ela só por prêmio pertendia.
Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la:
Sou a dona dos místicos cansaços,
A fantástica e estranha rapariga
Que um dia ficou presa nos teus braços...
Não vás ainda embora, ó sombra amiga!
Não se pode sonhar impunemente
Um grande sonho pelo mundo afora,
Porque o veneno humano não demora
Em corrompê-lo na íntima semente...
Que amor é esse que a própria vida deu,
Deixando Sua glória, vindo ao mundo pra morrer?
Sobre Chopin a noite abre o amplo manto constelado:
um delírio de amor anda por tudo, insone, insano!
Em cada nota solta há como um lânguido lamento.
Conheci mais tristeza que ventura
E sempre andei errante e peregrino.
Vivi sujeito ao doce desatino
Que tanto engana mas tão pouco dura...
Quando o Outono leva a folha rendilhada,
O vestido real da branda Primavera,
O rio abre-lhe os braços e leva amortalhada
A pequenina folha, essa ideal quimera!
Uns aos outros se impedem na saída
e querem cometer e não se abalam,
e vou para falar e fico mudo.
Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
-"Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Era a virgem do mar! na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Por quê? Porque lhes falta a todas elas,
mesmo às que são mais puras e mais belas,
um detalhe sutil, um quase nada
As estrelas cativas no teu seio
Dão-me um tocante e fugitivo enleio,
Embalam-me na luz consoladora!
Abre-me os braços, Solidão radiante...
Mas a ridícula e bela verdade é que no fundo, bem feitas as contas, nós nos queremos um grande bem. Estamos habituados um ao outro. Envelhecemos juntos. A face do Outro é o meu calendário implacável.
+Nos santos óleos do luar, floria
Teu corpo ideal, com o resplendor da Helade
E em toda a etérea, branda claridade
Como que erravam fluidos de harmonia...
Maieável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo
Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!
Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.
Para as Estrelas de cristais gelados
As ânsias e os desejos vão subindo
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só.
Assim que a vida e alma e esperança,
E tudo quanto tenho, tudo é vosso,
E o proveito disso eu só o levo.
Ninguém passa na estrada.
Nem um bêbado.
No entanto há seguramente por ela uma procissão de sombras.
No jornal, de olhos tensos, soletramos
As vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
Ilhas mortas de sede, onde não chove.
Talvez a cerva branca do meu sonho
Do côncavo rebanho se perdesse.
Talvez do eco dum distante canto
Nascesse a poesia que fazemos.
Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!
Companheiro,
Eu sou tu, sou membro do teu corpo e adubo da tua alma.
Sou todos e sou um
A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me
A vós, lado patente, quero unir-me
O corpo e a mente
têm biografias separadas,
cada um sua memória própria,
seu próprio jogo de charadas,
Meu corpo tem lembranças
- cheiros, tiques, andanças -
que a mente não registrou
e o corpo não tem as marcas
de metado do que a mente passou
Vou fazer as malas para o Definitivo,
Organizar Álvaro de Campos,
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem - um antes de ontem que é sempre...
Mas, meu Amor, eu não te digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!
Lições da pedra [de fora para dentro,
Cartilha muda], para quem soletrá-la.
Amar e ser amado! Com que anelo
Com quanto ardor este adorado sonho
Acalentei em meu delírio ardente
Por essas doces noites de desvelo!
São duas flores unidas,
São duas rosas nascidas
Talvez no mesmo arrebol,
Vivendo no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.
Partindo eu disse - "Voltarei! descansa!. . . "
Ela, chorando mais que uma criança,
Ela em soluços murmurou-me: "adeus!"
Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
A dança dos encéfalos acesos
Começa. A carne é fogo. A alma arde. A espaços
As cabeças, as mãos, os pés e os braços
Tombara, cedendo à ação de ignotos pesos!
Muita gente infeliz assim não pensa;
No entanto o mundo é uma ilusão completa,
E não é a Esperança por sentença
Este laço que ao mundo nos manieta?
Surpreendo-me, sozinho, numa cova.
Então meu desvario se renova...
Como que, abrindo todos os jazigos,
A Morte, em trajes pretos e amarelos,
Levanta contra mim grandes cutelos
E as baionetas dos dragões antigos!
O pequeno vaga-lume,
queimada a sua lanterna,
jaz carbonizado e triste
e qualquer brisa o carrega
Não crê em nada, pois, nada há que traga
Consolo à Mágoa, a que só ele assiste.
Quer resistir, e quanto mais resiste
Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga.
O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto(?)...
Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verde-louro desta flâmula:
-Paz no futuro e glória no passado.
Aqui quem só perdeu
Quem sabe só ganhou
Um dia todos saberão
Podemos então dizer que somos livres,
com a paz e o sorriso de quem se reconhece
e viajou à roda do mundo infatigável,
porque mordeu a alma até aos ossos dela.
Para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
Cristos ideais, serenos, luminosos,
Ensangüentados Cristos dolorosos
Cuja cabeça a Dor e a Luz retrata.
Ninguém venha me dar vida,
que estou morrendo de amor
O que não tem certeza nem nunca terá
O que não tem conserto nem nunca terá
O que não tem tamanho
As cinzas que não sabes voarão sobre Apolo e Ísis.
É uma noite ardente, a que se prepara
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.
Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!
E olho para as flores e sorrio...
Não sei se elas me compreendem
Nem sei eu as compreendo a elas,
Mas sei que a verdade está nelas e em mim
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sulcando o espaço, devassando a terra,
A aeronave que um mistério encerra
Vai pelo espaço acompanhando o mundo.
Tô pensando em me jogar de cima da pedra mais alta
Vou mergulhar, talvez bater cabeça no fundo
Vou dar braçadas, remar todos mares do mundo
O medo fica maior de cima da pedra mais alta
Tua palavra, tua história
tua verdade fazendo escola
e tua ausência fazendo silêncio em todo lugar
Os teus cabelos são uns fios d'ouro;
teu lindo corpo bálsamos vapora.
Ah! não, não fez o céu, gentil pastora,
para a glória de amor igual tesouro!
Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio
Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Talvez nem a sobre-humana
mão que tece o ar e a floresta
perturbe alguém que descansa
de tão duras controvérsias.
Que teorias há para quem sente
O cérebro quebrar-se, como um dente
Dum pente de mendigo que emigrou?
Numerar sepulturas e carneiros,
Reduzir carnes podres a algarismos,
Tal é, sem complicados silogismos,
A aritmética hedionda dos coveiros!
Vim cantar-te a canção do mundo,
mas estás de ouvidos fechados
para os meus lábios inexatos,
- atento a um canto mais profundo.
É tudo quanto sinto, um desconcerto;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.
Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do último momento
Não se regozija com a injustiça, mas se regozija com a verdade;
Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais acaba.
Não me basta saber que sou amado,
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.
Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.
Reconcentrando-se em si mesma, um dia,
A Natureza olhou-se interiormente!
Em vão! Contra o poder criador do Sonho
O Fim das Coisas mostra-se medonho
Como o desaguadouro atro de um rio...
São despedaçamentos, derrubadas,
Federações sidéricas quebradas...
E eu só, o último a ser, pelo orbe adiante...
Era de vê-lo, imóvel, resignado,
Tragicamente de si mesmo oriundo,
Fora da sucessão, estranho ao mundo,
Com o reflexo fúnebre do Increado:
Se tanta pena tenho merecida
Em pago de sofrer tantas durezas,
Provai, Senhora, em mim vossas cruezas,
Que aqui tendes u'a alma oferecida.
Fator universal do transformismo.
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme - é o seu nome obscuro de batismo.
Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança inda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais,
E se torna, não tornam as idades.
É a dor da Força desaproveitada,
- O cantochão dos dínamos profundos.
Que, podendo mover milhões de mundos,
Jazem ainda na estática do Nada!
E não é a Esperança por sentença
Este laço que ao mundo nos manieta?
Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.
Mas há dias em que nada faz sentido
E o sinais que me ligam ao mundo se desligam
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
É uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
O homem mais forte do planeta
Tórax de Superman
Tórax de Superman
E coração de poeta
Mostra-se tão graciosa a quem a mira,
Que nos filtra através do olhar no seio,
Um dulçor que só entende quem o prova.
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles.
+Não há quem não se espante, quando
mostro o retrato desta sala,
que o dia inteiro está mirando,
e à meia-noite em ponto fala.
Penso nas amizades sem raízes;
Nos afetos anônimos, dispersos,
Que tenho sob os céus de outros países...
Penso neste milagre dos meus versos:
E eu pisando a estrada, e eu pisando a estrada,
vendo o lago denso, vendo a terra de ouro,
com pingos de chuva numa luz vermelha...
O fogo que na branda cera ardia,
Vendo o rosto gentil que na alma vejo.
Se acendeu de outro fogo do desejo,
Por alcançar a luz que vence o dia.
Casa onde não mora ninguém, e eu batendo e chamando
Pela dor de chamar e não ser escutado.
Simplesmente bater.
Meu coração, coisa de aço,
Começa a achar um cansaço
Esta procura de espaço
Para o desenho da vida.
Não cantes. A praça cheia torna-se escura e subterrânea.
E meu nome se escuta a si mesmo, triste e falso.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
Com uma palavra tão doce,
de maneira tão serena,
que até Deus pensou que fosse
felicidade - e não pena.
Busque Amor novas artes, novo engenho
Pera matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.
Mas porém se acontecesse
De São Pedro não abrisse
A porta do céu
E fosse de dizer qualquer tolice
Porque sempre a encolhida cobardia
De pedra serve ao livre pensamento.
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Tudo imóvel... Serenidades...
Que tristeza, nos sonhos meus!
E quanto choro e quanto adeus
Neste mar de infelicidades!
O Viajante traça seu caminho, afinal,
Sob o sol fresco e intermitente;
E o potro persegue encurvado, silente,
O tortuoso eco de suas pisadas.
O amor antigo vive de si mesmo,
Não de cultivo alheio ou de presença.
As altas tôrres, que fundei no vento,
Levou, em fim, o vento que as sostinha;
Do mal que me ficou a culpa é minha,
Pois sôbre cousas vãs fiz fundamento.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
Leda serenidade deleitosa,
Que representa em terra um paraíso;
Entre rubis e perlas doce riso;
Debaixo de ouro e neve cor-de-rosa;
Pólipo de recônditas reentrâncias,
Larva do caos telúrico, procedo
Da escuridão do cósmico segredo,
Da substância de todas as substâncias!
Meti todos os dedos mercenários
Na consciência daquela multidão...
E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
Somente achei moléculas de lama
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,
Rezaria seus versos, os mais belos,
Desses que desde a infância me embalaram
E quem me dera que alguns fossem meus!
Ainda que sua vida pareça cheia de coisas comuns,
Em apenas um momento Ele pode te tocar e tudo mudará
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Farei que amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.
Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo.
E aprende que não importa o quanto você se importe,
algumas pessoas simplesmente não se importam...
Corro pera ela; e ela então parece
Que mais de mim se alonga, compelida.
Brado: - Não me fujais, sombra benina!
Proclamem com beleza a Sua criação
Os feitos de Sua mão, Sua glória e grandeza
Cárcere do ser, não há libertação de ti?
Cárcere do pensar não há libertação de ti?
Ah, não, nenhuma, nem morte nem vida nem Deus!
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
Eu estou causando-Lhe dor?
Então eu sei que eu tenho que mudar:
Eu simplesmente não posso suportar a idéia de feri-Lo.
Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
Não olhe para trás -
Apenas começamos.
O mundo começa agora -
Apenas começamos.
Eu sei e você sabe
Já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo
levará você de mim
Abri meus braços para alcançar-te:
fechei meus braços, - não tinha nada!
Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos
- E se eu der tudo o que tenho?
O que meu presente pode fazer?
Você sabe como é
Estar tão só
Que a escuridão e a luz
Se misturam?
Em cada sentimento meu...
Tem um sentido...
E um rumo inexistente...
Já o verme - este operário das ruínas -
(...)
Anda a espreitar meus olhos para roê-los
Será o ser algo desdobrável
Ou incorruptível ao ponto único
De não ter mais nada em si
Do que a própria estrutura de ser?
Esta chama que alenta e consome,
Que é vida - e que a vida destrói -
Como é que se veio a atear?
Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer - e vive a esmo
Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está ligada.